Risco de intervenção militar não é fantasia

Sob o título de “Alertar é preciso”, o general Rômulo Bini Pèreira, ex-chefe do Estado Maior do Ministério da Defesa, publicou artigo no jornal “O Estado de São Paulo” alertando para a possibilidade de uma intervenção das Forças Armadas no panorama de “desgraça” hoje existente no país, conforme sua expressão, caso “alcance relevância” o clamor dos que pedem uma ação dos militares. Segundo o general, aqueles que saíram às ruas pedindo intervenção militar “alegam que as Forças Armadas cultuam princípios e valores que não veem em outras instituições e que elas seriam a única solução para a crise atual”.

Embora recentemente o general comandante do Exército tenha classificado de “tresloucados” aqueles que reivindicam uma intervenção militar, o articulista lembra que “os adeptos da intervenção vem crescendo visivelmente”, só não podendo afirmar “se são adeptos de uma ação direta manu militari ou de um apoio total e participativo num novo governo não eleito pelo voto popular”. Destacou, justificando a posição dos manifestantes, que eles “são cidadãos de meia idade, que conviveram com o regime militar e consideram o período de proveito para a sociedade brasileira”. E acrescentou: “Por terem a mesma visão, a eles se juntam jovens revoltados e sem esperanças de melhoras na crise que o país vive”.

As observações do general Bini, embora não representem a posição das Forças Armadas, não podem ser subestimadas. Muito pelo contrário, devem ser analisadas com atenção, pois podem refletir o pensamento de uma parcela de militares que, como todos os brasileiros, devem estar acompanhando atentamente os acontecimentos no país através do noticiário dos jornais e das emissoras de televisão e, como muitos leitores e telespectadores, olhando os fatos pela mesma ótica distorcida dos grandes veículos de comunicação. Isso fica claro quando ele diz que “três centenas de deputados fizeram emendas a meia noite para desvirtuar as medidas anticorrupção propostas pelo povo brasileiro”. Ora, todo mundo sabe que as medidas, classificadas de “cretinas” pelo ministro Gilmar Mendes, foram da iniciativa dos procuradores da Lava-Jato, não do povo. E muita gente foi enganada porque assinou a proposta sem ler o seu conteúdo, apenas sugestionada por ser “contra a corrupção”.

Todos os brasileiros obviamente são contra a corrupção e aprovam o seu combate – daí o prestígio alcançado pelo pessoal da Lava-Jato – mas muitos já começam a perceber que os investigadores estão agindo partidariamente, seletivamente, só mirando nos suspeitos dos partidos que não lhes são simpáticos. Por isso, estão de fora do “combate”, blindados pelos “caçadores de corruptos”, os tucanos e pemedebistas ligados ao governo Temer acusados de corrupção passiva. E mais: quem, ingenuamente, assinou o projeto não viu que ele estabelecia, entre outras coisas, a extinção do habeas corpus; a legalização do dedo-duro, com o nome de “reportante”, e, mais grave, a validação de provas até mediante tortura, obtidas, segundo os procuradores, de “boa fé”. É claro que a Câmara dos Deputados tinha o dever de alterar o projeto, o que pode fazer a qualquer hora, inclusive a meia noite. Até porque não é obrigada a aprovar qualquer proposta, mesmo de parlamentares, em seu texto original.




Ao mesmo tempo em que elogia “o corajoso desempenho dos juízes de primeira instância”, ou seja, o pessoal da Lava-Jato, o general em seu artigo critica o Supremo Tribunal Federal, onde “são graves as divergências pessoais entre alguns de seus membros” e onde notou “a presença da política partidária”. Critica também o “fatiamento”, pelo ex- presidente da Corte, do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e classifica de “imorais” os altos salários do Judiciário. Também critica o senador Renan Calheiros, por desobedecer à ordem judicial que o afastou da presidência do Congresso, alivia para o governo Temer, considerando apenas “possível”, apesar das inúmeras delações, o envolvimento da equipe governamental em atos de corrupção, e carrega contra a atual oposição, ou seja, contra o petismo, acusando-o de acuar o governo e de ser “o único responsável pela calamidade que tomou conta do país”. Finalmente, considera tudo isso “uma desgraça sem precedentes”.

O general falou de quase tudo em seu artigo, mas esqueceu de um ponto muito importante: o leilão fatiado da Petrobrás e a entrega do pré-sal para o capital estrangeiro. Os militares sempre foram vistos como nacionalistas, com algumas exceções, mas se o general Geisel, que presidiu a Petrobrás, ainda fosse vivo, Pedro Parente jamais leiloaria a estatal. Parente desafiou o Tribunal de Contas da União, prosseguindo na venda de ativos da empresa apesar da proibição do TCU, mas certamente não teria a mesma ousadia se algum general, seguindo o exemplo nacionalista de Geisel, manifestasse seu desagrado com o leilão. Porque se depender de Temer, que segue a orientação dos tucanos, Parente vai finalmente realizar em meses o que FHC não conseguiu em oito anos de governo: privatizar a Petrobrás.

Lamentavelmente é fácil perceber que o general Bini segue a mesma linha de pensamento da Grande Mídia, o que de certo modo não surpreende, pois essa mesma mídia apoiou o regime militar. Daí manifestar uma velada aprovação ao governo Temer, não vendo nele, mas no governo petista, o responsável pela difícil situação do país, apesar de encarapitado no poder há mais de sete meses. Conclui-se, sem muita dificuldade, que se acontecer de fato a intervenção militar, conforme a possibilidade levantada pelo general, e se a intervenção ocorrer com esse mesmo pensamento, então praticamente nada vai mudar: os políticos continuarão sendo vistos como corruptos, a caçada a Lula terá prosseguimento, a Lava-Jato continuará mandando até no Supremo e Temer poderá permanecer no governo, só que mais forte, por contar com o apoio dos militares. E o Brasil vai precisar de um milagre para sair desse abismo e voltar a ser o país que todos desejamos.

Fonte: brasil247 e jornal do país